Sábado, 2 de Março de 2013

Domingo, 17 de Fevereiro de 2013

Mariana

Cresci habituada a ter o televisor (na altura em que ainda se dizia televisor) sintonizado na rtp 2. Após o  jantar, os meus pais viam sempre o jornal da 2. Jornal esse que era basicamente dedicado a notícias do mundo e política externa. Soube desde pequena como se pronunciavam os nomes dos protagonistas e habituei-me àquelas caras de lugares longínquos. Mas uma coisa que não sabia e que só soube quase nas vésperas de entrar para a faculdade era o que queria fazer da e na vida. Quis ser muita coisa, arqueóloga (o clássico), bióloga marinha (só porque adorava o mar... pois), advogada (porque as séries deviam ter um qualquer atractivo), etc, etc. De vez em quando vinha à memória aquela ideia romântica: queria trabalhar nas Nações Unidas, mas não um trabalho de escritório, queria um trabalho de campo, naquelas locais que eu tanto via retratados durante o jornal da 2. Essa ideia passou e segui a minha vida.  Anos mais tarde, pensei em candidatar-me para uma temporada ao serviço dos Médicos sem Fronteiras, mas pouco tempo depois soube que estava grávida. Ainda não desisti, gosto de pensar que adiei este projecto.
Esta introdução que já vai mais que longo serve um propósito. Apresentar alguém cuja vida é admirável, daquelas pessoas que se eu tivesse conhecido quando era miúda e não sabia o que fazer no futuro poderiam ter tido uma influência capaz de alterar o caminho. A Mariana van Zeller é portuguesa, jornalista e correspondente da National Geographic, premiada por vários documentários. Como eu digo frequentemente, portuguese do it better!


Sábado, 16 de Fevereiro de 2013

Um dia acordamos e temos 30 anos, vivemos numa casa com soalho de tábua corrida, e temos um quase marido que prepara um pesto com manjericão comprado no super biológico do bairro, e um bébé que cresce a um ritmo exponencial e que se diverte com onomatopeias enquanto vê o pai ralar queijo.  Um dia perguntam-nos a idade e dizemos que temos 29, para depois nos lembrarmos que não, que os vintes já não voltam, mas não faz mal. Um dia achamos que está na altura de voltarmos a sermos nós, e de impulso compramos dois bilhetes para que a música volte a ser uma constante. Para que o que nos define não fique esquecido ou perdido, ou ambos. Um dia acordamos, com dores no corpo, mas agradecidos pela existência de drogas que nos devolvem o bem estar, e com vontade de buscar e reunir palavras. Acho que hoje é o dia.

Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013

1

A ilusão do recomeçar, que chega em força neste dia e na noite que o antecede, como se o rasgar da última página do calendário funcionasse melhor que a melhor das mezinhas, é quase enternecedora. Mas, que não seja eu a figura de uma qualquer imitação do tal velho que apregoava a desgraça alheia mais ali para baixo, junto ao rio. Junto-me pois, à ilusão colectiva, porque como tão bem sabemos, o colectivo tem uma força superior ao individual e assim, também eu de forma recatada e sem passas de uva, que não há maneira de as tolerar, peço sem contenção os desejos a que tenho direito, porque para já, desejar ainda não paga imposto. Bem vindo sejas, 2013.

Sábado, 29 de Dezembro de 2012

Já lá vai o tempo em que as estatísticas deste blogue me provocavam uma certa excitação e contentamento próprio de quem ainda precisa de reforço externo para continuar uma tarefa que em parte também serve para colher elogios. A excitação já não é, de todo, a mesma, mas hoje apetecia-me ter quem me lesse desse lado.
Confesso que esta coisa da maternidade contribuiu para uma certa alienação à qual não estava acostumada, mas tenho esperança de que aos poucos, a consciência retorne a casa. Mas estava eu a falar da maternidade, apenas como justificativo para os horários meus que acompanham os de um pequeno de poucos meses. Edição da manhã sintonizada no televisor, lenços de papel a cobrirem o sofá, botija de água quente e constipação lado a lado. Nos "Momentos de Mudança", que nunca tinha visto, provavelmente porque uma fralda se terá antecipado, os protagonistas são dois jovens que integram os actuais movimentos de cidadania, aspirando a um novo partido que se adeqúe aos seus ideais utópicos. Jovens que podiam ter sido meus colegas de escola. Pessoas normais no sentido do ser comum. Olho e não me revejo, tendo nesse momento a certeza da sorte com a qual me deito. Sorte, trabalho, ambos, não sei, mas sei que é o que quero passar para o Francisco quando o vejo a dormir o sono daqueles que ainda não sabem que a vida, essa que não controlamos, nos fará sofrer para aspirarmos a sermos felizes. Olho para as notícias que se seguem, e sinto uma raiva crescente perante uma injustiça que já nem sequer é disfarçada. Porque afinal nós, o povo, os cidadãos comuns, os que não têm contas em paraísos fiscais ou acções de uma holding, ou um cargo de assessoria porque não temos perfil para boys que se perfilam iguais, parece que não importamos. O que acontece é que os Pedros e os Miguéis e os Paulos deste mundo, não têm o direito de tirar a esperança a quem dela depende. Porque sem esperança viver torna-se um mero acto, desprovido de essência. E viver pode e deve ser bem mais que isso.

Domingo, 23 de Dezembro de 2012

In the meantime

Ambivalência é a palavra que melhor me descreve nos dias que correm. Quero estar contigo mas quero tempo para mim. Estou cheia de ideias e projectos para pôr em prática, mas quero ver todas as tuas graças e aquisições. Preciso, desesperadamente, de um programa de adultos, mas sem ti falta sem algo. Queria, por momentos, voltar ao tempo em que não tinha um ser dependente, mas já não vivo sem este presente que tu enches. Quero voltar aqui e escrever sempre, mas a inércia tem sido dominante. Não quero que este seja um qualquer género de babyblog (hedious word), mas só me ocorre falar de ti. E assim vamos vivendo.

Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012

Em jeito de diário, como aqueles que escrevi durante anos e permanecem guardados numa gaveta do quarto de adolescente em casa dos meus pais, sinto-me obrigada a deixar-te palavras no dia em que te deixo e já não posso seguir atentamente os teus sorrisos, o teu palrar, as tuas birras, a forma como a chucha se escapa dos teus lábios desenhados a carvão quando o sono já vai profundo. Vejo o dia nascer da mesma forma que eu. Cinzento e frio. Ouço-te mesmo quando não produzes som, vejo-te mesmo quando não estás, sinto-te sempre. Raio de amor este que me deixa o coração mirrado. Em jeito de diário, como aqueles escritos e guardados no quarto de adolescente, quero dizer-te que vou, mas parte de mim ficará onde estiveres.

Domingo, 18 de Novembro de 2012

30

Não quis esperar pela meia-noite. Deitei-me, mas demorei a adormecer. De um lado um respirar mais forte, do outro um mais acelerado que teimava em ficar acordado até que foi vencido pelo cansaço. E foi ladeada por dois amores, um maior, outro mais pequeno em tamanho, mas em afecto impossível de quantificar, que entrei nos 30. Eu, que sempre me senti sem idade, dou por mim a ter alguma dificuldade em repetir - tenho 30 anos. Estranho. Surge-me a ideia de que terei menos anos para estar com o Francisco, e que terei menos anos de companhia dos meus pais. Sinto-me um bocadinho menos filha única, e passo a abraçar a responsabilidade cumulativa de ter 30 anos e um pequeno dependente de mim. Sentada no banco que está junto à janela, vou olhando para a vida lá fora e o que sobressai é o sol que resolveu aparecer sem pudor. Geralmente chove a 18 de Novembro. Quando a meteorologia me falha, fico um pouco à deriva, que esta maldita mania do controlo não me abandona nunca. E se calhar é isso que me deixa um estômago apertado, é o não saber o que aí vem, o que me espera, o que me está reservado. Sentada no banco que está junto da janela vou repetindo que sou uma pessoa de sorte. E sou. E lembro-me do que a minha mãe me desejava sempre que me ia dar um beijo de boa noite. Tem resultado, e não é hoje que hei-de inverter o desejado. Quero muito continuar a ser feliz, mesmo com estes momentos em que me sinto mais triste.

Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012

Precisei de uma noite para poder escrever algo que não fosse só vindo do coração. Sou portuguesa, nascida, criada, sem qualquer laço ancestral a outra nação. Foi quando vivi em Espanha que mais orgulho tive no meu país, que esta coisa da saudade é mesmo nossa. Sempre vi os portugueses como um povo não violento. Continuo a vê-los da mesma forma. Ontem não estive na manifestação, assisti incrédula em casa com o meu filho de três meses e meio ao colo. Virados para a televisão aqueles pequenos olhos azuis viam imagens de um País que é o seu, de uma realidade que será a sua, porque não há amor de mãe que possa contornar essa inevitabilidade. O que eu ontem vi não foi um povo violento. O que ontem vi, foi uma minoria de gente provocadora, sedenta de pequenas demonstrações de guerrilhas, nas quais possam agir tudo o que não lhes é permitido de outra forma. O que eu vi ontem foi uma maioria de gente, igual a mim, aos meus pais, aos meus amigos. Gente desesperada e não violenta. Gente que se vê sem soluções perante um gigante autista que insiste em falar de uma crise económica quando o que transparece cada vez mais é uma crise sociológica, e essa sim, mais difícil de resolver. O que eu vi ontem foi uma carga policial indiscriminada, bem à imagem do governo que lhes paga o ordenado. Os portugueses não são violentos, são o povo da saudade e do fado, dos poetas. E as guerras, essas eu gostava que se ganhassem com palavras e não com pedras da calçada.

Segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

Não há dúvida que a vida vai mudando. Muito, constantemente. Por vezes de uma forma que não permite que volte atrás, que desfaça o que fiz, o que fui fazendo. Mas depois, depois existem aqueles pensamentos imutáveis que estão cá sempre. Que me acompanham mesmo que mude a geografia do sítio onde me encontro. Vão, estão sempre comigo porque são indissociáveis, tatuados os sentimentos na pele, em que mesmo que pinte por cima, não desaparecem. Finjo apenas que não estão lá porque não os vislumbro ao primeiro olhar mas depois, se ficar concentrada e fixada começo a ver novamente os recortes do que já foi. As linhas ganham novamente outra definição e momentaneamente, apenas numa fracção de segundo volto a sentir um desconforto que quase se torna um mal-estar tão bem conhecido, mas do qual não tenho saudades. Às vezes gostava tanto de não pensar, ser acéfala. Simples na essência. Questionaria menos, angustiar-me-ia menos, seria mais feliz. Sendo que sou feliz, muito. Menos por momentos, quando volto a sentir um desconforto ao ver na pele aquelas linhas vincadas de memórias de tempos passados.

Quarta-feira, 31 de Outubro de 2012

O Outono é provavelmente a minha estação do ano favorita. Gosto da melancolia que é traduzida pelo entardecer menos brilhante, pela dança das folhas desde os ramos até pousarem no chão. Há um recolhimento natural que por vezes é-o mais interior. Ontem, enquanto olhava para aquele pequeno ser que ocupa já um espaço imensurável e o via na agitação que já lhe é característica, lembrei-me de partilhar com ele uma música de que gosto muito. Aliás vai para além do gostar, é uma música que me emociona profundamente e me transporta até outros pensamentos que estão escondidos algures, espreitando de vez em quando a ver se são descobertos. E às vezes são. Satie tocava e aqueles grandes olhos azuis foram ficando mais brilhantes, e aquele pequeno corpo mais sossegado. E ali ficou ele, se calhar como eu, transportado para um outro mundo. 

Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

Estou exaurida. O cabelo num estado indescritível, as pantufas a desfazerem-se, os óculos a escorregarem pelo nariz. Uma pequena criatura com uma birra monumental. O Benfica a perder em Moscovo. Maravilhas das "férias" que as pessoas insistem em atribuir-me.

Domingo, 21 de Outubro de 2012

Na manhã cinzenta em que decido investir o tempo livre (oi?) na aprendizagem ou consolidação de uma Língua estrangeira, pego na Monocle, que tem permanecido esquecida num canto da sala, em cuja capa está escrito why portuguese is the new language of power and trade. Terei que rever prioridades?

Sábado, 20 de Outubro de 2012

O Público, a par do Expresso, é o jornal que me habituei a ver em casa desde miúda. Com o passar dos anos, e como diz a minha mãe, o Expresso foi ficando para trás "porque estava farta de jornalismo de opinião". Mas o Público permaneceu companhia diária. Até que eu própria já na minha casa continuei o hábito de, ao sábado, ler o jornal com uma chávena de cappuccino do lado. Hoje contrario essa tendência. Hoje peguei no telefone e liguei à minha mãe para a proibir de comprar o Público. Aquele que era o meu jornal, desiludiu-me grandemente. Despedir jornalistas cujas ideias, desconfio, não são facilmente corrompidas, apresentar-me mil e uma versões de arquitectura japonesa e lifestyle não sei do quê não cumpre os meus requisitos de um jornal. O Público tinha conseguido ser o melhor jornal do País. Agora conseguiu ser a maior vergonha em termos de media. Entristece-me assistir ao agora português... Hoje os jornalistas estão de greve. E eu acompanho-os e o meu exemplar fica na banca.

Quarta-feira, 17 de Outubro de 2012

23:54 e eu descanso finalmente as pernas no sofá. Foi um dia bom, dos melhores desde que me apareceste na vida. Não contava apaixonar-me novamente, pensava que da última vez seria a última vez, mas estava enganada. E depois chegaste tu. E depois perdi-me. Perdi-me em ti e perdi-me de mim. Está na altura de começar a procurar-me. Com sorte, encontro-me.